Dança e Saúde Mental

professora de dança com alunas em sala

Um mergulho para dentro

por Flávia Lucato, professora | 25/09/2019

Dançar é estar presente, é habitar seu corpo exatamente onde ele está. Dançar é encarar suas próprias belezas, descobrir detalhes que seu corpo guardava e você nem tinha notado, é um caminho  inevitável em direção a si mesmo. E por ser um encontro consigo, a dança também revela as asperezas, as dores, a tendência de se encolher diante da imensidão de uma sala de dança, ou a fúria com que um movimento de repente nos escapa enquanto tentávamos ser um pouco mais delicados. A dança não mente, ela só conta para o mundo aquilo que de alguma forma já existe dentro da gente.

Foi-se o tempo em que dissociávamos corpo e mente para lidar com a saúde. Ainda que a nossa medicina ocidental seja tão fragmentada pelas suas especificidades, grande parte dos profissionais já lança um olhar muito mais global para qualquer tipo de problema que se manifeste fisicamente ou emocionalmente. Corpo são, mente sã. E vice e versa.

Você já parou pra analisar o que seu corpo revela pela própria postura?

Estando em pé, por exemplo, seu peso está todo projetado sobre os dedos, avançando sobre o futuro, ou desabado sobre os calcanhares, recuado diante do novo dia que nasce? Seus ombros estão fechados, criando uma concha onde se recolhe um coração desconfiado, ou o peito está estufado, pronto para travar uma batalha contra qualquer opinião divergente que surja diante dos seus olhos? E seus olhos, aliás, estão seguindo aquilo que suas mãos fazem, atentos, ou estão vagando, perdidos em pensamentos enquanto o corpo cumpre as atividades de forma mecânica? Quando escutamos as mensagens sutis que nosso corpo revela, podemos fazer uma leitura muito mais complexa de nós mesmos.

Seus ombros estão fechados, criando uma concha onde se recolhe um coração desconfiado, ou o peito está estufado, pronto para travar uma batalha contra qualquer opinião divergente que surja diante dos seus olhos? E seus olhos, aliás, estão seguindo aquilo que suas mãos fazem, atentos, ou estão vagando, perdidos em pensamentos enquanto o corpo cumpre as atividades de forma mecânica? Quando escutamos as mensagens sutis que nosso corpo revela, podemos fazer uma leitura muito mais complexa de nós mesmos.

Em quinze anos como professora de dança já presenciei inúmeros mergulhos de alunas e alunos para dentro de suas próprias verdades, e também sigo mergulhando todos os dias em direção às minhas. Costumo dizer que se você tem um corpo, você tem uma dança. Quem me ensinou isso foi Maria Fux, criadora do método de Dançaterapia, uma senhora argentina que no auge dos seus 97 anos continua dançando lindamente. Maria extrai movimento das pessoas nas mais adversas condições. Maria me ensinou a dançar sentada na cadeira, se não for possível ficar em pé; Ela me ensinou a dançar o silêncio se não for possível escutar a música, porque Maria também me ensinou que ritmo é pulsação, e para ter um ritmo interno basta estar vivo. Maria me mostrou o lado mais humano da dança, e essa essência pode estar presente por trás de qualquer técnica, de qualquer estilo, dançando num grande teatro ou na sala de estar da sua casa.

Muitas vezes associamos a dança a um modelo de virtuosismo, de talento e potência física que nos parece inacessível. Por esse motivo, tantas pessoas nem cogitam a ideia de começar a dançar depois de adultas, mas a dança é extremamente generosa com os corpos. Nós é que costumamos limitar ou criar obstáculos a partir de ideias pré concebidas. Hoje, com mais escolas acolhendo esse público adulto e com mais entendimento sobre os benefícios dessa prática, inclusive pela classe médica, o cenário está mudando.

Fernanda Silva Pereira, 48, Professora da rede pública de ensino, aluna do Estúdio Anacã desde 2017, conta que ao receber o diagnóstico de depressão seu psiquiatra indicou alguma atividade como a dança ou a yoga como suporte para o tratamento. O profissional sugeriu algo que desse prazer e colocasse seu corpo em movimento. Fernanda acabou encontrando mais benefícios do que esperava: “Enquanto eu danço eu não penso em nada e estou totalmente focada em aprender aqueles movimentos. É um momento que eu olho muito pra mim. Eu olho fisicamente, porque fico diante do espelho, o que ainda causa um certo desconforto, mas aos poucos começo a me sentir feliz com algum exercício que já consigo fazer, então passo a curtir e até arriscar umas caras e bocas. Mas não é só essa percepção física. A dança permite que eu olhe para dentro. Quando eu comecei, não era só o corpo que me parecia um pouco destrambelhado, mas a minha cabeça principalmente. Era uma desordem, que agora começa a encontrar alguma organização”.

A vantagem de pertencer a um lugar onde você pode aprender, é que o círculo social também se abre, e a troca de experiências com outras pessoas que estão conectadas pelo mesmo processo de busca é muito enriquecedora. “Você vai fazer uma aula de dança e acaba conhecendo pessoas incríveis. Tudo isso faz parte da terapia, porque vamos criando uma amizade que se estende também para fora das aulas. Quem está bem ajuda quem não está tão bem”.

Depois de quatro anos de tratamento, Fernanda está começando a trabalhar com seu médico para a retirada dos remédios. Quem já passou pelo abismo da depressão sabe como pode parecer um caminho sem saída, angustiante e desesperador: A sensação de não saber como será possível continuar morando dentro de si mesmo. Mas é possível. E é maravilhoso voltar a sentir alegria. Dançar é um auxílio na “fabricação de alegrias”, liberando endorfina no corpo e servindo de mestre para a reconexão, aceitação e autocuidado. Para continuar habitando a si mesmo com alegria é preciso redescobrir o respeito e o amor-próprio. E se você olhar bem, a dança vai lhe mostrar o quão maravilhoso e único seu corpo é.

A dança como forma de ajuda na depressão

Além de oferecer suporte para problemas típicos da nossa sociedade atual, como a Depressão, Síndrome do Pânico e Ansiedade, a dança tem sido apontada como uma excelente alternativa na prevenção do envelhecimento do cérebro e, consequentemente, prevenção do Alzheimer. Se os médicos sempre sugeriram palavras-cruzadas como exercício para a cabeça dos idosos, imagine se todos os dias você se divertir e desafiar seu corpo a coordenar os membros em movimentos pouco convencionais, dentro de uma musicalidade, trabalhando equilíbrio, relação com o espaço, dinâmicas diferentes de movimento, emoções, e depois de tudo, exigir que sua cabeça transfira todas as informações para executar os exercícios pelo outro lado – porque tudo que se faz na dança é treinado na direita e na esquerda, equilibrando toda parte estrutural e desafiando completamente o cérebro.

Algumas atividades físicas podem ser executadas com um nível simples de atenção. A dança não. A dança quer você por inteiro, dos pés à cabeça, por dentro e por fora, sua entrega completa e todos os seus sentidos. E como recompensa, ela te leva ao encontro do bem mais precioso: Ela te devolve a você mesmo.

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